sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sobre a crise educacional


“A crise educacional não é uma crise e sim um projeto”, disse Darci Ribeiro. E se nos questionarmos um pouco a respeito dessa afirmação veremos o quanto ela é verdadeira. A educação definha em um país tão rico como o nosso e quando tentamos encontrar motivos para isso, naturalmente, o principal argumento que temos é o da corrupção, entranhada na história de nossa terra. Mas não é bem por aí, existem fatores muito maiores, mais antigos e poderosos, que estão por trás desta crise, ou melhor, deste “projeto”.
            A história nos mostra que desde a criação da escrita o homem encontrou meios de burocratizar e tornar difícil o acesso a tal conhecimento. Os antigos escribas eram pessoas importantíssimas nas sociedades e repassavam seu conhecimento apenas aos seus filhos, numa forma de monarquia cujo poder era o domínio da escrita.
            Tempos depois, já sob o domínio da Igreja, o mundo atravessou um período de total repreensão sobre todo e qualquer pensamento científico. O conhecimento era limitado apenas aos clérigos, e em muitos casos, como vimos com Umberto Eco em O nome da rosa, os livros eram envenenados para que ninguém tivesse acesso ao conhecimento, ou melhor, para que os que o tivessem não sobrevivessem, garantindo assim a perpetuação da ignorância entre os fiéis, o povo, a plebe.
            Após muitas lutas: ascensão da burguesia, Revolução Industrial, surgimento das lutas de classe, guerras mundiais, o homem sofreu um processo que poderíamos chamar de humanização, pois nos tornamos um pouco melhores: quase acabamos com a escravidão, ao menos a legal; surgiram constituições, e com elas conquistamos direitos; mas ainda estamos muito distantes de nos libertarmos do julgo do imperialismo, da sede de poder, que hoje nos domina sob os moldes do capitalismo. Deixamos de ser escravos dos senhores feudais e da religião para nos tornarmos escravos do lucro. E a educação, por mais que tenha se tornado quase universal, ao menos nos países desenvolvidos, e também em nosso país, nunca passou de uma ferramenta poderosíssima nas mãos do capital para a manutenção da ignorância, ou melhor, para amansar a prole, para que em países como o nosso Brasil os poderosos possam mostrar aos credores que o povo já consegue ler o manual de uma máquina e apertar um botão, gerando lucros sem danificá-la, e o mais importante: sem pensar... O que faz a educação tecnicista, se não preparar mão de obra barata?
            Mas não podemos deixar de reconhecer que houve avanços, pois existem uns poucos iluminados que conseguem formar-se na escola pública e tornarem-se agentes transformadores em nossa sociedade, geralmente em cargos educacionais. Verdadeiros guerreiros que dia e noite enfrentam a dura realidade da desvalorização do seu trabalho e, o pior, que é ver a educação afundar num grande mar de problemas que poderiam ser evitados caso não houvesse tantas artimanhas do sistema para desviar o foco dos jovens do conhecimento, pois convivemos com alunos que preferem qualquer coisa ao conhecimento. Um reflexo da fragilidade da família, da falta de cuidado dos pais ou responsáveis, e culpa principalmente da grande mídia, uma arma enorme nas mãos dos poderosos, que não incentiva a educação em sua programação, privilegiando o índice de audiência, o lucro, em lugar da construção de uma sociedade do conhecimento, fazendo da liberdade de expressão uma verdadeira libertinagem, tornando a sexualidade algo banal, empobrecendo a nossa cultura, fazendo com que as pessoas não pensem, ou melhor, fazendo com que pensem naquilo que veiculam, que consumam aquilo que propagam, que votem naquele que determinam, etc. fazendo do povo o que chamam de “massa de manobra”.
Enquanto isso, os cargos elitizados: medicina, advocacia, engenharia, etc. sempre estiveram nas mãos dos filhos dos patrões ou, em raros casos, dos que se sacrificam para pagar pela educação da burguesia. O que torna extremamente incoerente o fato de ouvirmos a burguesia a reclamar da quantidade de impostos que a todo o momento pagamos. Preferem ausentar-se da luta por uma educação digna, gratuita, a ver os seus filhos, futuros patrões, estudando ao lado dos filhos de seus empregados. Ou será que enxergam isso como uma solução para a futura relação de exploração entre seu filho e o filho de seus empregados? Nem é preciso esforço para encontrarmos a resposta... A escola particular é sim um instrumento importantíssimo para a manutenção do poder das famílias burguesas e que deve ser visto por nós, trabalhadores, como algo a ser eliminado de nossa sociedade. Só assim, talvez, a escola pública se torne melhor, já que os filhos dos que a regem serão seus alunos.

Os governos vem e vão, as promessas são esquecidas, o povo continua vivendo na obscuridade, os tais direitos iguais nem sequer são conhecidos como direitos pela maioria, que vive mendigando um pouco mais da esmola que os burgueses nos oferecem para acalmar nossos ânimos e fazer-nos pensar que melhorou. “Já dá para o arroz, o feijão, às vezes para a carne, e não falta o da cachaça. Diversão? Na televisão tem a beça: muita música sertaneja, funk, bunda e sexo. Programação perfeita para o povo. Uma programação ignorante para um povo que ignora. Tudo perfeito para continuarmos a dominar esse bom gado, essas boas ovelhas, esse povo maravilhoso que não sabe o que é política, porque os ensinamos a dizer “política não se discute”. Esse povo maravilhoso que nos elege de dois em dois anos para continuarmos mamando nas tetas dessa grande vaca que se chama Capitalismo.” Assim pensam os que nos oprimem... E nós queremos ao menos pensar?

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Considerações sobre os adolescentes a família, a crise de valores e a política em nossa sociedade


         
            
          Na Rua Governador Valadares, bem próximo ao hospital Santa Maria, havia uma velha casa de madeira. Abandonada pelos seus donos, aquela casa se tornara um cantinho dos prazeres. A molecada se reunia todas as noites para bebericar o que conseguiam, da maneira mais escondida possível, e imaginar que eram homens, bebendo, usufruindo daquilo que a cultura de nossos pais, machista, desde pequenos nos ensina ser o certo, mesmo sendo o errado. É cultura, né? Fazer o quê?!

Outras vezes, depois dos hormônios mais evolvidos podíamos nos permitir visitas de mocinhas já mulheres, vivendo as ebulições hormônicas dos seus quatorze, quinze anos, permitindo às filas de moleques provarem daquele mel prometido, sabia Deus a quem...

            Meu Deus!... Só Deus é que protegia aquela legião de prováveis aidéticos...

            E hoje? O que os jovens fazem?

           Não chega a ser tão diferente, mas hoje a libertinagem e a ausência de valores, inclusive éticos e morais parecem estar mais acentuadas. Na verdade muita coisa deixou de ser camuflada... 

          Quando me lembro da forma como tínhamos medo de sermos pegos por um adulto. Era medo mesmo! Se nossos pais soubessem de alguma de nossas traquinagens, Deus do céu! Era “caixão e vela preta!” Hoje parece que a molecada não se importa com a possível repreensão de um adulto. Ao que parece, eles nem diferenciam mais adultos de adolescentes ou crianças. Talvez seja pela confusão que a TV tem feito há anos mostrando crianças que vivem como adultos, se vestem como adultos, tem uma vida sexual ativa, como adultos... São crianças... E nem vou pedir que acredite, pois nem é preciso, basta olhar para os lados. 

           Achamos tudo o que acontece com a juventude algo anormal, mas não é bem por aí. Para eles, tudo o que achamos impróprio para suas idades, é muito normal. Esse tem sido um dos problemas, não deles, mas nosso. Os tratamos como achamos correto, mas estamos é perdidos, pois eles, com certeza, nos acham muito atrasados. O pior é que somos mesmo...

       Eles já sabem de tudo o que achamos que não sabem, já conversam sobre todos os assuntos que pensamos ser vergonhoso para eles, já fazem coisas que nem se quer imaginamos, quando estão sozinhos ou com os amiguinhos ou amiguinhas. Em suas cabeças existe um universo que, se pudéssemos navegar por suas galáxias, certamente teríamos o pior de todos os nossos pesadelos, pois o que esperamos deles é que sejam crianças, crianças apenas... Mas não o são! Não mais!

          Essa crise familiar que o nosso país está vivenciando, por estar ainda em seu começo, não permitiu que a população parasse e desse a devida atenção que a discussão merece. Mas a passos largos o caos está tomando nossas casas, nossos bairros, nossas cidades, e por todos os cantos do país vemos casos de jovens sem futuro, casos de crianças que dão à luz a outras crianças, casos de pais cada vez mais omissos, ausentes, e, por isso, muito compreensivos com os seus filhos quando não deveriam ser...

           Então, o que fazer?

           Solucionar este problema será um enorme desafio para as conjunturas políticas que pretendem comandar o nosso país, os nossos estados, as nossas cidades. Mas, sinceramente, acredito ser muito difícil que os governos neoliberais, financiados pelas grandes empresas, banqueiros e corrupção, sejam capazes de encontrar caminhos que possam ser trilhados por essa nova sociedade que se apresenta. Até porque é de interesse do poder que as pessoas não tenham a capacidade de reconhecer a verdadeira situação em que vivem política, social e economicamente falando. Famílias desestruturadas acabam por contribuir com os problemas sociais que vivemos hoje de modo insofismável. E quando falo em famílias falo em todos os tipos de família que temos hoje, pois a família tradicional há muito que vem definhando por diversos motivos.
 
           Quando um pai precisa de um político para conseguir que sua conta de luz seja paga, ou precisa de um corrupto para que o remédio que deveria estar no postinho chegue até o seu filho, ou precise se humilhar diante de um vereador ou prefeito para conseguir uma ambulância para levar o seu filho acidentado até a cidade mais próxima com UTI (o que deveria existir em todas as cidades, se observarmos a quantidade de impostos que pagamos), quando este pai ou mãe precisa passar dias atrás de um político para conseguir um contrato temporário para poder sustentar sua família, como se não tivesse direito a um bom emprego, como se não tivesse direito a ter em sua cidade um concurso público para que pudesse conquistar a sua vaga e não precisar ser humilhado por sigla partidária alguma... Quando coisas assim acontecem, é porque, infelizmente, a sociedade nem se quer sabe o verdadeiro papel de um político, ou então, pior ainda, a necessidade que o povo passa devido à corrupção e má administração é tanta que o povo se vê obrigado a aceitar o inferno em que vivemos... Estamos sem saída... Talvez...

A educação, a ciência, o conhecimento, que são a única saída para o povo, são desmoralizados através das armas que o poder utiliza para fazer do povo eternos ignorantes: sucateamento da educação pública, em todos os níveis; desvalorização dos profissionais da educação; a TV; a prostituição legal; a banalização do sexo através de músicas, filmes e sua livre divulgação através dos diversos e modernos meios de comunicação; até a própria igreja, com sua milenar alienação cultural e científica, sempre se curvando aos poderosos, seus patrocinadores... Verdadeiro cerco fechado...

Temo muito pelo futuro que nossos filhos terão... Temo muito pelo futuro que eu terei, pois para todos os lados que olhamos nestes dias de campanha vemos os frutos da corrupção se aproveitarem da ignorância, câncer de nossa sociedade, e fazerem com que pernas e braços empunhem pendões e entreguem folhetins com os números daqueles que sem dúvida são os culpados por tais braços e tais pernas terem de se submeter a tal opressão, a tal vergonha, a tal humilhação...

          Espero em Deus que a humanidade possa um dia abrir os olhos, que possa discernir entre a exploração e a comunhão, que aprenda com o “mistério” de Cristo o que vem a ser comunidade, entrega, socialismo, luta pelos irmãos, que são as pessoas de todas as cores, classes, opções sexuais, religiões, partidos políticos, países, etc. e que através do conhecimento e evolução que o Criador nos proporcionou possamos construir uma terra livre de opressores, de políticos corruptos, da ignorância, e que todos tenham oportunidade de ser, de dizer, de sonhar, de fazer um mundo melhor.